Por que o lítio ficou importante, e o que o Brasil tem a ver com isso
O lítio está na bateria do celular, do carro elétrico e dos data centers da IA. Veja quem produz, onde o Brasil entra e quais são os riscos.
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A bateria do seu celular tem lítio. A do carro elétrico também, e a dos grandes armários de baterias que seguram a energia de um data center quando a luz cai. O lítio é um metal leve que guarda muita energia em pouco espaço. Por isso ele virou peça central da era das baterias, e da inteligência artificial. E uma parte desse lítio sai do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais. Neste texto você entende por que o lítio ficou importante, quanto o mundo produz, onde o Brasil está nessa lista e o que pode dar errado.
Como funciona: de pedra a bateria
O lítio não aparece puro na natureza. Ele vem de dois lugares principais:
- Rocha: um mineral chamado espodumênio (uma pedra rica em lítio) é tirado de minas, moído e concentrado. É o caso da Austrália e do Brasil.
- Salmoura: água muito salgada, bombeada de baixo dos desertos de sal (os salares) e deixada ao sol em grandes piscinas até evaporar. É o caso do Chile e da Argentina.
Foto: Géry Parent, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons. Espodumênio (variedade kunzita) de Coronel Murta, no Vale do Jequitinhonha (MG).
Depois, o concentrado ou o sal vai para uma refinaria química, que o transforma em carbonato ou hidróxido de lítio, o pó que entra na fábrica de baterias. Essa etapa é a mais concentrada do mundo: segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), a China produziu 70% dos químicos de lítio em 2024.
Imagem: NASA Scientific Visualization Studio, dados Landsat, domínio público, via Wikimedia Commons. Piscinas de evaporação de lítio no Salar de Atacama, em fevereiro de 2026.
Por que o lítio ficou importante: 88% vai para baterias
Segundo o Serviço Geológico dos EUA (USGS), no relatório de fevereiro de 2026, 88% do lítio usado no mundo vai para baterias. O resto vai para vidro e cerâmica (4%), graxas (2%) e outros usos menores.
As baterias puxam o lítio por quatro caminhos, segundo o USGS: carros elétricos, armazenamento de energia na rede elétrica, aparelhos portáteis (celular, notebook) e ferramentas elétricas.
É aqui que entra a inteligência artificial. A IA roda em data centers, prédios cheios de computadores que não podem desligar nem por um segundo. Segundo o relatório Energy and AI da IEA (abril de 2025), esses prédios usam baterias de íon-lítio nos sistemas de energia ininterrupta, os "nobreaks" gigantes que seguram tudo ligado até o gerador entrar. E quanto mais energia solar e eólica abastece esses data centers, mais baterias a rede precisa para guardar energia para a noite. Quer entender o tamanho dessa conta de luz? Veja Quanta energia a IA consome?.
O resultado aparece nos números. Segundo o USGS, o consumo mundial de lítio foi de cerca de 263 mil toneladas em 2025, 20% a mais que em 2024. A IEA projeta, no cenário que considera as políticas já anunciadas pelos países, que a demanda passe de 205 mil toneladas em 2024 para 455 mil toneladas em 2030, mais que o dobro em seis anos.
Quem produz lítio no mundo, e onde o Brasil está
A tabela abaixo usa os números do USGS (fevereiro de 2026). "Reserva" é o lítio que já se sabe que existe e que dá para extrair com lucro. Os números estão em toneladas de lítio contido.
| País | Produção de minas em 2025 (estimada) | Reservas |
|---|---|---|
| Austrália | 92.000 t | 8.400.000 t |
| China | 62.000 t | 4.600.000 t |
| Chile | 56.000 t | 9.200.000 t |
| Zimbábue | 28.000 t | 500.000 t |
| Argentina | 23.000 t | 4.400.000 t |
| Brasil | 12.000 t | 540.000 t |
| Mundo (sem os EUA) | 290.000 t | 37.000.000 t |
Fonte: USGS, Mineral Commodity Summaries 2026. Os EUA não divulgam a produção.
A conta para o Brasil: 12.000 ÷ 290.000 dá cerca de 4% da produção mundial em 2025. Nas reservas, 540.000 ÷ 37.000.000 dá cerca de 1,5%. Entre os países que o USGS lista um a um, o Brasil é o 6º em produção e o 7º em reservas. A produção brasileira cresceu de 10.200 toneladas em 2024 para 12.000 em 2025, alta de cerca de 18%.
Ou seja: o Brasil não é um gigante do lítio, mas já está no grupo dos produtores relevantes, e é um dos poucos fora da Ásia e da Oceania que extraem lítio de rocha.
O lítio brasileiro sai do Vale do Jequitinhonha
Segundo o Anuário Mineral Brasileiro 2025 da Agência Nacional de Mineração (ANM), com dados de 2024, toda a produção de lítio do Brasil saiu de Minas Gerais. Naquele ano, as minas tiraram cerca de 2,49 milhões de toneladas de rocha, que viraram cerca de 944 mil toneladas de concentrado. As vendas somaram cerca de R$ 1,11 bilhão. Os principais produtores, segundo a ANM, foram três empresas: Sigma Mineração, AMG Brasil e Companhia Brasileira de Lítio.
As minas ficam no Vale do Jequitinhonha, no nordeste de Minas, em cidades como Araçuaí e Itinga. É da mesma região a kunzita da foto acima, uma variedade rosada do espodumênio usada como pedra preciosa.
Um dado do mesmo anuário mostra o outro lado da história. Em 2024, o Brasil exportou US$ 302,6 milhões em produtos de lítio e importou US$ 657,8 milhões, segundo a ANM, com dados da Secretaria de Comércio Exterior. O país vende mais o lítio na forma de minério e compra de fora, pagando mais, o lítio já transformado. O valor fica em quem refina e fabrica a bateria.
O que observar
- O preço sobe e desce muito. Segundo o USGS, o carbonato de lítio custou em média US$ 63.700 por tonelada em 2022 e US$ 9.000 em 2025. A IEA calculou que o lítio de uma bateria de carro média (57 kWh) passou a custar cerca de US$ 15, contra US$ 67 em 2022.
- Refino no Brasil. A pergunta que mais importa para empregos e renda aqui é se o país vai transformar o concentrado em químico de bateria, ou continuar vendendo pedra.
- Relatórios anuais. O USGS sai todo mês de fevereiro, o Anuário da ANM sai uma vez por ano e a IEA publica o Global Critical Minerals Outlook no meio do ano. São as fontes para acompanhar reservas, produção e preços.
Riscos e limites
- Preço em queda desanima projetos. Com o lítio barato, segundo o USGS, produtores reduziram a produção ou adiaram expansões em 2025. Projeto anunciado não é projeto pronto.
- Impacto em quem mora perto. Uma reportagem da Agência Pública, de dezembro de 2025, ouviu moradores de Araçuaí e Itinga. Ela cita um levantamento do Ministério Público de Minas Gerais: 50% relatam rachaduras em casa e 76% reclamam de poeira. Mineração gera emprego e imposto, mas também explosões, poeira e disputa por água.
- A China manda no refino. Mesmo com minas no Brasil, na Austrália ou no Chile, a maior parte do lítio passa pela China antes de virar bateria. Isso dá a um só país muito poder sobre o preço e o abastecimento.
- Outras baterias podem surgir. O USGS registra que existem substitutos possíveis para o lítio em baterias. Uma troca de tecnologia pode mudar a demanda.
Perguntas frequentes
Para que serve o lítio?
Principalmente para baterias recarregáveis: segundo o USGS, 88% do lítio usado no mundo vai para elas. Estão no celular, no notebook, no carro elétrico e nos sistemas que guardam energia da rede elétrica e dos data centers.
O Brasil tem muito lítio?
O Brasil tem cerca de 1,5% das reservas mundiais e fez cerca de 4% da produção mundial em 2025, segundo o USGS. É um produtor relevante, mas bem atrás de Austrália, Chile, China e Argentina.
Onde fica o lítio no Brasil?
Em Minas Gerais. Segundo a ANM, toda a produção de 2024 saiu do estado, principalmente do Vale do Jequitinhonha, em cidades como Araçuaí e Itinga.
Por que o preço do lítio caiu tanto?
Porque a produção cresceu mais rápido que o consumo. Segundo o USGS, a produção mundial subiu 31% em 2025, e o preço médio do carbonato de lítio nos EUA caiu de US$ 63.700 por tonelada em 2022 para US$ 9.000 em 2025. No segundo semestre de 2025, a venda de carros elétricos e de baterias para a rede voltou a puxar o preço para cima.
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