Selic, CDI e IPCA: as três siglas que mexem no seu dinheiro (e a conta que ninguém te mostra)
O gerente diz "rende 100% do CDI", o jornal fala da Selic e o aluguel sobe pelo IPCA. A gente traduz as três siglas e faz a conta do que você ganha.
Revisado por Murakami5 fontes7 min de leitura
Conteúdo educativo. Não é recomendação de investimento.
Você abre o aplicativo do banco e lá está: "Rende 100% do CDI". No mesmo dia, o jornal da noite avisa que "o Copom cortou a Selic", e o boleto do aluguel chega com reajuste "pelo IPCA".
Três siglas, três lugares diferentes da sua vida. E, olha, quase ninguém para pra explicar o que cada uma quer dizer. Bora resolver isso agora, com conta feita e sem economês.
Spoiler: as três estão ligadas
Primeiro, o mapa:
- IPCA é o termômetro: mede quanto os preços subiram.
- Selic é o remédio: o juro que o Banco Central usa para segurar esses preços.
- CDI é o reflexo: o juro que os bancos cobram entre eles, que anda colado na Selic e vira a régua de muito investimento.
Quando o termômetro esquenta, o Banco Central costuma subir o remédio. E o reflexo vai junto.
Selic: o juro que o Banco Central decide numa reunião
A Selic é a taxa básica de juros do Brasil. Quem decide o valor é o Copom, o Comitê de Política Monetária do Banco Central, em reuniões ao longo do ano.
Segundo o Banco Central, na reunião de 16 de setembro de 2026 o Copom levou a meta da Selic de 14% para 13,75% ao ano, valendo desde 17 de setembro de 2026 (dado conferido em 4 de outubro de 2026). Foi um corte de 0,25 ponto.
Tá, mas por que um número decidido em Brasília mexe com a parcela do seu carro?
Porque a Selic é o piso. Banco nenhum empresta dinheiro para você mais barato do que ele consegue ganhar emprestando para o governo. Então, quando a Selic sobe, sobe junto o custo do financiamento, do empréstimo pessoal, do cheque especial e do rotativo do cartão. Quando ela cai, o crédito tende a ficar um pouco menos caro. "Tende", repara: o banco também cobra pelo risco de calote, pelo lucro dele e pelos impostos. Por isso o juro do cartão continua altíssimo mesmo com a Selic caindo.
A Selic alta é o Banco Central tirando o pé do acelerador: crédito mais caro, gente comprando menos, preços subindo mais devagar. É assim que ela segura a inflação.
IPCA: a inflação que você sente no carrinho do mercado
O IPCA é o índice oficial de inflação do Brasil, calculado pelo IBGE. Ele mede o preço de uma cesta de coisas: comida, aluguel, luz, transporte, remédio.
Segundo o IBGE, o IPCA acumulado em 12 meses até agosto de 2026 ficou em 4,22% (dado conferido em 4 de outubro de 2026). Em português claro: em média, o que custava R$ 1.000 em agosto de 2025 passou a custar R$ 1.042,20 em agosto de 2026.
E tem uma curiosidade aí. Só no mês de agosto de 2026, o IPCA foi de −0,32%, segundo o mesmo IBGE. Sim, negativo: na média, os preços caíram naquele mês. Não se anime demais, porque um mês de queda não desfaz um ano de alta.
Onde o IPCA aparece no seu dia a dia:
- Aluguel: muitos contratos são reajustados pelo IPCA (outros, pelo IGP-M). O índice está escrito no seu contrato. Vale conferir.
- Salário mínimo: pela Lei 14.663, de 2023, o reajuste parte do INPC, outro índice de preços do IBGE, irmão do IPCA (não é o mesmo índice).
- Mercado e contas: é o próprio IPCA medindo o que você já sentiu no bolso.
CDI: a régua escondida no "rende 100% do CDI"
Agora a parte que o banco não te explica.
O CDI é a taxa dos empréstimos de um dia que os bancos fazem entre si. Você nunca vai negociar com ele, mas ele virou a régua de boa parte da renda fixa: quando um CDB diz que "rende 100% do CDI", está dizendo "rendo o mesmo que essa taxa".
Segundo os indicadores financeiros da B3, a taxa CDI estava em 13,65% ao ano em 2 de outubro de 2026 (conferido em 4 de outubro de 2026). Repara que ela fica um pouquinho abaixo da meta da Selic, de 13,75%. É o normal: as duas andam praticamente coladas.
A conta com R$ 1.000
Vamos supor que o CDI ficasse em 13,65% durante 12 meses inteiros. Ele não vai ficar parado, porque muda a cada decisão do Copom, mas serve para entender:
- 100% do CDI: R$ 1.000 × 13,65% = R$ 136,50 em um ano. Você terminaria com R$ 1.136,50.
- 90% do CDI: R$ 1.000 × (13,65% × 0,9) = R$ 1.000 × 12,285% = R$ 122,85.
Percebeu? "90% do CDI" parece quase igual a "100% do CDI", mas são R$ 13,65 a menos para cada R$ 1.000, todo ano.
E atenção: tudo isso é antes do Imposto de Renda e de eventuais taxas. O valor que cai na sua conta é menor.
O ahá: render 12% não é ganhar 12%
É aqui que a coisa fica interessante.
Imagina que alguém te diz: "esse investimento rendeu 12% no ano". Parece ótimo. Só que os preços também subiram. O que importa não é quanto o número na tela cresceu. É quanto a mais você consegue comprar com ele.
Isso tem nome: juro real, o rendimento descontada a inflação.
Vamos à conta, com os R$ 1.000 e o IPCA de 4,22% dos últimos 12 meses:
- Seu dinheiro rendeu 12%: R$ 1.000 viraram R$ 1.120.
- A cesta que custava R$ 1.000 agora custa R$ 1.042,20.
- Quanto a mais você compra: R$ 1.120 ÷ R$ 1.042,20 = 1,0746.
Ou seja, o ganho real foi de cerca de 7,46%, não de 12%.
"Ué, por que não é só fazer 12 menos 4,22, que dá 7,78?" Boa pergunta. A subtração é um atalho que funciona bem com números pequenos, mas exagera um pouco. A divisão é a conta certa, porque a inflação come também o que você ganhou.
Fazendo o mesmo com os 13,65% do CDI: 1,1365 ÷ 1,0422 = 1,0905. Um ganho real de cerca de 9,05%, de novo antes do imposto.
E a regra vale ao contrário também. Se algo rende menos que a inflação, você termina o ano com mais reais e menos poder de compra. Pois é: dá para "ganhar" e sair perdendo.
Tá, mas o que isso tem a ver com a minha poupança?
Tudo. As três siglas aparecem disfarçadas nos nomes dos investimentos mais comuns. Não é lista de "melhores", é só para você reconhecer quando encontrar:
- Poupança: pela Lei 12.703, de 2012, quando a meta da Selic está acima de 8,5% ao ano, a poupança rende 0,5% ao mês mais a TR (outra taxa do Banco Central). Fazendo a conta, 1,005 elevado a 12 dá cerca de 6,17% ao ano, mais a TR. Com a Selic em 13,75%, é essa a regra que vale.
- CDB: é o famoso "% do CDI". Você empresta para o banco, e o rendimento vem atrelado ao CDI.
- Tesouro Selic: título do governo que acompanha a Selic.
- Tesouro IPCA+: paga a inflação medida pelo IPCA mais uma taxa combinada. É o juro real escrito no próprio nome.
Cada um tem regra própria de imposto, prazo, liquidez (quanto tempo para ter o dinheiro de volta) e garantia. Entenda essas quatro coisas para a sua situação antes de qualquer escolha. E desconfie de quem quer escolher por você.
Por falar em desconfiar: se alguém te prometer um rendimento muito acima da Selic, "garantido", a conta deste texto já te dá a arma. Compara com a taxa oficial. A gente fez essa comparação no texto sobre o robô que promete 10% ao mês.
O que acompanhar daqui pra frente
Você não precisa virar economista. Três hábitos já mudam o jogo:
- Quando o jornal falar do Copom, lembre: mexeu na Selic, mexe no CDI e no custo do seu crédito.
- Quando sair o IPCA do mês, olhe o acumulado em 12 meses. É ele que você compara com o seu rendimento.
- Quando o banco disser "% do CDI", pergunte quanto por cento, e quanto fica depois do imposto.
Parece pouco. Mas quem entende essas três siglas já lê a própria vida financeira com outros olhos.
Quer seguir puxando o fio? Vale ler por que aposta não é investimento, com a conta de quem sempre ganha, e o que vem dentro de um ETF de inteligência artificial.
Conteúdo educativo. Não é recomendação de investimento. Não indicamos compra ou venda de ativos nem prometemos rentabilidade.